terça-feira, junho 2

Edson (Druida) Júnior em… É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil)

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Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
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Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
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Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil


por Filipe Lutalo

Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.

À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.

Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.

Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência.


Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
Gerador Aleatório de Aventuras de Horror
Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
Aventuras prontas para RPG
Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil



1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários?

Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.

Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.

Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também.

A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).

Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.

Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).

Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes
.

Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
Gerador Aleatório de Aventuras de Horror
Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
Aventuras prontas para RPG
Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil
Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ.


2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes?

Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.

Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.

E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/


3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo?

Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado
.

Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.

Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.

E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.

Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.

Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo.

Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
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Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil



4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo?

O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ.

5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador?

Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.

Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.

Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.

Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes
.

 

Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
Gerador Aleatório de Aventuras de Horror
Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
Aventuras prontas para RPG
Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil


6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais?

Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa.

Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base.

É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa.

E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo.

7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade?

A RPGCON surgiu
em 2020
, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line
.”

Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.

Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.

Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.

Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ.

Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital.

Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
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Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
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Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil


8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo?

Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?

Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.

Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições.


9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão?

Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.

Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.

Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG.

Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
Gerador Aleatório de Aventuras de Horror
Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
Aventuras prontas para RPG
Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil


10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material?

Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.

ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.

Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.

Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.

Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk


11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje?

Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.

Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.

Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.

Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais.

Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros.

Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.

Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.

E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte.

Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
Gerador Aleatório de Aventuras de Horror
Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
Aventuras prontas para RPG
Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil

Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.

E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.

Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.

Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.

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Aventuras prontas para RPG

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Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
O que é RPG?
Se você está chegando agora no hobby ou quer revisitar os conceitos básicos, este guia explica de forma simples o que é RPG e como começar.
Gerador Aleatório de Aventuras de Horror
Precisa de ideias rápidas para suas sessões? Use este gerador e crie aventuras de horror em poucos minutos.
Aventuras prontas para RPG
Sem tempo para preparar sessão? Confira opções de aventuras prontas e leve sua mesa direto para a ação.   ----------------------​RPGames Brasil

 

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Edson (Druida) Júnior em... É pro Fantástico!?! (RPGames Brasil) - Dicas - RPG - Mestre Charles Corrêa - - por Filipe Lutalo
Antes mesmo de saber o que era RPG, ele já criava histórias, personagens e conflitos — dividindo seus brinquedos entre heróis e vilões e dando a cada um características próprias. O que começou como uma brincadeira de infância evoluiu, ao longo de mais de três décadas, para um dos projetos mais consistentes de RPG independente no Brasil.
À frente do RPG Brasil, Edson (Druida) Júnior construiu o cenário ERÄ de forma orgânica, colaborativa e contínua desde os anos 90 — um mundo que cresceu junto com seus jogadores e com a própria comunidade.
Essa trajetória também levou à criação do sistema Kings & Heroes, ao envolvimento direto com a comunidade por meio da RPGCON e, agora, ao lançamento de novos materiais como o suplemento Leókarim – Homens-Leão.
Nesta entrevista, Druida compartilha sua jornada, os desafios de manter um projeto vivo por tantos anos e sua visão sobre o RPG nacional — com uma mensagem clara: criar RPG é, antes de tudo, um ato de paixão e persistência. 1. Para começar, como foi o seu primeiro contato com o RPG de mesa e
o que te motivou a criar seus próprios sistemas e cenários? Olá, RPGGames
Brasil. Primeiramente, obrigado pela entrevista.
Eu sempre comento
que já jogava RPG antes mesmo de saber o que era RPG, pois, quando
era bem pequeno, eu tinha alguns bonecos que separava por grupos —
os mocinhos e os vilões — e criava a personalidade de cada um
deles, além de atributos básicos, como: este é forte, este é
inteligente, este é ágil, etc.
Depois, passei a
conhecer o RPG através do videogame, com jogos de AD&D para
consoles, e, quando passou a propaganda de Hero Quest na TV pela
primeira vez, fiquei doido. Assim que ganhei o jogo, comentei com
alguns amigos, e um deles disse que havia sido convidado para jogar
um tal de D&D e que iria ver se eu poderia jogar também. A partir dali, foi
um caminho sem volta. A gente jogava sem livros, apenas com o que o
mestre trazia de informações em sua memória de outro grupo que ele
jogava de vez em quando em BH (somos de Varginha/MG).
Em 1997, criei o
cenário de ERÄ, que ainda nem tinha esse nome na época, para uma
campanha de GURPS Viagem no Tempo. Porém, os jogadores gostaram
tanto de jogar no cenário que passaram a querer continuar ali. Como,
nessa época, quase não tínhamos cenários traduzidos, e os que
haviam era caros para nós, adolescentes, precisávamos nos virar, e
assim o cenário ERÄ tornou-se o nosso oficial.
Por volta de 2002,
resolvi pegar as anotações e reescrever tudo, e, em 2008, criei o
site RPGBrasil para ser o palco do cenário, onde tivemos diversas
colaborações para o mesmo através de um Fórum que o site tinha na
época. Tudo era disponibilizado gratuitamente; porém, utilizávamos
sistemas como D&D, GURPS e 3D&T para os materiais que exigiam
regras. Ainda assim, muita gente nas redes sociais vinha perguntando
se tínhamos licença para criar materiais usando esses sistemas
(mesmo sendo gratuitos).
Incomodado com
aquilo criamos o sistema Desbravadores de ERÄ (pois já tínhamos
uma revista com esse nome) e, como ele começou a receber muitos
downloads e procura, evoluímos o sistema em 2018 para Kings &
Heroes. Mais de 30 anos criando e desenvolvendo o universo de ERÄ. 2. O Kings &
Heroes nasceu como um sistema próprio dentro do seu universo. Em que
momento você decidiu que precisava criar um sistema autoral em vez
de utilizar sistemas já existentes? Bem, a necessidade surgiu quando não tínhamos licença
para usar sistemas de terceiros. Na época, tentei contato com Mighty
Blade e Tagmar, que já existiam e eram gratuitos, mas ambos já
possuíam cenários próprios e não tiveram interesse em incluir ERÄ
como um cenário desses sistemas.
Assim, não restou
outra alternativa senão criar algo próprio — foi assim que nasceu
o Desbravadores RPG o precursor de Kings & Heroes.
E olha que ele
existe até hoje na Biblioteca Élfica:
https://bibliotecaelfica.org/category/desbravadores/ 3. O
sistema tem como proposta ser acessível, dinâmico e voltado para
uso constante na mesa. Como você equilibrou simplicidade e
profundidade no design do jogo? Pode-se dizer que,
de longe, este não é meu primeiro sistema. Quando jogava Hero
Quest, criei regras, baseadas em D&D — que também jogava —,
para poder evoluir os personagens. Também já desenvolvi várias
regras para GURPS, como sistemas de combate de naves (antes de lançar
o GURPS SPACE no Brasil e modéstia à parte, o que criei é muito
melhor que o oficial (risos), espécies e muito mais. Gosto muito de
descrever tudo o que crio; inclusive, cheguei a ser premiado em um
concurso de Old Dragon como melhor monstro criado.
Mas também sempre
amei o realismo na mesa de jogo e os jogos de estratégia. Em 2004,
tive uma loja de RPG aqui na minha cidade e, lá, criei um sistema de
jogo de estratégia evolutivo para o pessoal que jogava Mage Knight.
Assim, o grupo podia jogar semanalmente, com partidas que permitiam a
evolução de seus exércitos e tudo mais.
Acredito que, com
base em toda essa bagagem anterior, Kings & Heroes já estava
meio que formado em minha mente. Eu queria um sistema que utilizasse
miniaturas, mecânicas estratégicas de combate, elementos de board
game e uma pegada realista, com golpes em pontos específicos e danos
que podem matar alguém com um único golpe — algo muito inspirado
em GURPS.
E havia algo em
outros RPGs que sempre me incomodava: todos escolhiam as armas apenas
pelo dano que causavam, mas, na prática, não é assim. Cada arma
tem sua função. Então, decidi criar habilidades ligadas ao uso das
armas, dando aos personagens um leque de evolução que também
envolve o tipo de arma que utilizam.
Alguém especialista
em faca pode, por exemplo, derrotar um soldado de armadura completa,
aproximando-se o suficiente para impedir seus ataques e atingindo-o
em pontos vulneráveis da armadura.
Assim, toda essa
mecânica faz de Kings & Heroes um sistema bem peculiar, ideal
para quem curte estratégia e realismo na mesa de jogo. 4. O
cenário ERÄ possui uma construção rica, com cronologia, reinos e
conflitos bem definidos. Como foi o processo de desenvolvimento desse
mundo ao longo do tempo? O cenário surgiu em 1997, ou seja, são muitos anos jogando nele. E em 2002 eu meio que descrevi bem como era cada reino e cada cidade. Dai pra frente, muitos mestres usaram o cenário e na própria RPGBrasil, muita gente escreveu, como os Deuses por exemplo, além de alguma cidade. Projetos colaborativos como Projeto ZOOM, Adote uma Cidade e Aventuras em Tela (este é novo), que voltamos a criar e apresentar ao público que usa ERÄ. Porque nosso objetivo é construir em conjunto exatamente para criar um cenário rico, com diversas culturas de diversos autores. E é basicamente assim que ERÄ nasceu, quase que organicamente, em mesa de jogo, construindo junto. E, atualmente, jogamos campanhas oficiais do cenário que é O Despertar das Sombras e Reflexos do Caos, a primeira está antes da cronologia atual dos livros que é 1670 e a segunda está a frente, elas culminaram em uma grande guerra conhecida como a Guerra das Sombras ou a Guerra do Avatar, que causará uma grande mudança geográfica e política em ERÄ. 5.Kings & Heroes e ERÄ caminham juntos como sistema e cenário. Como você enxerga essa relação entre mecânica e ambientação na experiência do jogador? Hoje em dia, é
muito comum o RPG ser sistema e cenário ao mesmo tempo. Mas, nos
anos 90, não era bem assim: GURPS era um sistema, enquanto GURPS
Fantasy trazia um cenário. D&D e seus livros eram sistemas;
Forgotten Realms, Ravenloft e outros eram os cenários.
Assim, tínhamos um
cenário — ERÄ — e, apesar de no início não querermos um
sistema para ele, pois o cenário por si só já trazia histórias e
se sustentava sozinho. Ainda assim, muita gente pedia a ficha de um
personagem ou de um monstro.
Dessa forma, não
tivemos como fugir e, naturalmente, acabamos criando um sistema para
ele, que foi o Kings & Heroes. Mas a premissa permanece: ERÄ é
muito mais descritivo do que um livro de regras. Assim, qualquer
mestre pode pegar o material e usar com seu sistema favorito. É
assim e sempre será — evitamos ao máximo incluir regras nos
livros do cenário.
Então, apesar de
caminharem juntos, vejo ERÄ como algo quase independente de Kings &
Heroes.   6. O
projeto também conta com diversos suplementos e expansões. Como
você decide quais elementos do cenário ou sistema merecem ser
aprofundados em novos materiais? Vou pegar como exemplo Leókarim, que estamos lançando agora. Escrever um livro sobre o cenário — por exemplo, Belthor, com quase 400 páginas (um único reino de 11 ao todo) — não permite explorar tudo. As cidades recebem descrições mais superficiais, as espécies apresentadas são as mais comuns, e você não consegue descrever uma taverna em detalhes ou contar a história de NPCs menos importantes. Se fizer isso, o livro ultrapassará 1.000 páginas e ainda assim faltará coisa. Assim, no passado, na época do fórum, tínhamos um projeto chamado Newsletter de ERÄ, que trazia exatamente isso: detalhes extras. Temos também o Projeto ZOOM, que permite que autores possam, por exemplo, pegar uma taverna e descrevê-la, ou pegar a flora — uma planta, por exemplo — e detalhar todas as formas como ela pode ser utilizada. Tudo isso enriquece o cenário, mas não cabe nos livros-base. É aí que surgem os suplementos, que são como DLCs dos jogos modernos e acrescentam uma vida extra ao cenário. Além disso, por serem livros menores, são mais baratos e tornam-se quase colecionáveis, seguindo a premissa old-school dos zines e também das revistas de RPG, que traziam material pontual para a sua mesa. E isso é muito interessante, porque você pode pegar esse conteúdo e usar, seja em ERÄ ou no seu próprio cenário. Afinal, como todo o nosso material, os suplementos são descritivos e permitem que você os adapte à sua própria mesa de jogo. 7. Você
também está à frente do RPG Brasil e da organização de eventos
como a RPGCON. Como surgiu essa iniciativa e qual é o papel dela no
fortalecimento da comunidade? A RPGCON surgiu
em 2020, no início da pandemia. Eu, como jogador de RPG, sentia as
dores de cada comentário que via nas redes sociais dizendo: “Minha
mesa parou, e agora?”. E, como sou da área de T.I., pensei:
“precisamos criar uma forma de ensinar esse pessoal a jogar
on-line.”
Então criei a
RPGCON e convidei meu sócio Alessandro “Fininho” e meu amigo
Leandro “Titio Ogro” para me ajudarem com isso. Ensinamos a
comunidade a jogar on-line, fechamos parcerias legais, como com o
Firecast, uma plataforma VTT nacional. Ajudamos no lançamento de
RPGs e criamos cinco revistas de RPG junto com a comunidade, as
RPGCON Magazine.
Porém, a RPGCON era
para durar apenas a edição de 2020, mas, como a pandemia se
estendeu, realizamos também as edições de 2021 e 2022. Em 2022, os
eventos presenciais começaram a voltar, e decidimos consultar a
comunidade para saber se queriam que continuássemos. Assim, fizemos
um financiamento coletivo com metas para manter o evento, que seguiu
até 2025, sendo essa a última edição, após seis anos de RPGCON.
Mas a RPGCON
consumia todo o nosso tempo ao longo dos 12 meses do ano. Quando
terminávamos uma edição, já precisávamos começar a estruturar a
próxima. Com isso, ERÄ e Kings & Heroes acabaram ficando em
segundo plano e esse não era nosso objetivo.
Então, em 2025,
quando não atingimos a meta para uma edição em 2026, paramos para
reavaliar e entendemos que era hora de voltar ao nosso foco: ERÄ. Foi assim que
lançamos o projeto Connect RPGBrasil, que reúne o sistema Kings &
Heroes e o cenário ERÄ de forma interativa e digital. 8. Organizar
eventos de RPG no Brasil envolve muitos desafios. Na sua experiência,
quais são os principais obstáculos e aprendizados ao longo desse
processo? Nosso evento era
on-line, o que nos isentava de dificuldades como espaço físico.
Porém, surgiam outros desafios, especialmente relacionados às
tecnologias e aos recursos utilizados, além de problemas como a
instabilidade da internet dos palestrantes, por exemplo. Ainda assim,
contornamos todas essas dificuldades com criatividade — algo que
não falta a um RPGista, certo?
Uma das coisas mais
legais que vi foi a união da comunidade — muita gente apoiou a
ideia, ajudando na divulgação. Por outro lado, tivemos grandes
dificuldades com patrocínios de editoras “grandes”,
principalmente no início. Normalmente, quem apoiava eram lojas
pequenas ou editoras menores.
Ainda assim, sempre
contamos com o apoio da New Order, por exemplo, e também tivemos
suporte de editoras maiores que não estavam diretamente ligadas ao
RPG, como a Conrad, que nos apoiou em todas as últimas edições. 9. O
financiamento coletivo tem sido uma ferramenta importante para
projetos independentes. Como tem sido a recepção do público ao
suplemento Leókarim – Homens-Leão? Estamos basicamente
retornando aos nossos financiamentos coletivos depois de um longo
período focados apenas na RPGCON. Então, está mais devagar do que
esperávamos, mas fazemos isso com amor. Nossa meta é irrisória:
apenas 500 reais para conseguir produzir o material.
Não colocamos
prazo; assim, quando a meta é atingida, deixamos o projeto por mais
30 dias no ar antes de finalizá-lo. Todo o material já está
pronto, exceto a impressão física. Portanto, assim que o
financiamento fechar, o pessoal já recebe o material digital e deve
receber o físico em, no máximo, um mês após a finalização.
Então, precisamos
do apoio de vocês para alcançar a meta mínima e colocar mais este
material no mundo e no cenário nacional de RPG. 10. O
suplemento Leókarim aprofunda uma espécie dentro do cenário,
trazendo detalhes culturais e biológicos. O que te motivou a
explorar esse nível de profundidade no material? Risos, pois é.
Quando escrevo algo, gosto de dar profundidade. Lembra do monstro de
Old Dragon? O diferencial foi exatamente isso: o descritivo que
empreguei nele.
ERÄ é assim. Eu
descrevo, por exemplo, no livro de Belthor, até a rotação das
luas, a inclinação do planeta (procurei matemáticos e astrônomos
para evitar falar bobagem), temperaturas médias, doenças, moedas
etc eu descrevi. Gosto de detalhar o material; afinal, para quem quer
usar todos os detalhes, eles estão ali — e detalhes geram ideias
para aventuras.
Quem quer usar uma
espécie só por usar também encontra ali as regras para criar o
personagem. Mas toda a base está disponível no livro. Então,
sempre gostei de criar as coisas como se estivesse escrevendo um
livro de biologia ou de história.
Normalmente,
pesquiso bastante, leio e paro para estruturar, para que, apesar de
serem materiais de fantasia, tenham uma base realista. Lembra que
falei que gosto de sistemas realistas? Acho que é meu jeito de criar
RPG, então acaba que meus materiais saem dessa forma.
Se é bom? Não sei
dizer! Mas, para quem gosta de detalhes, é um prato cheio, kkkkk 11. Obrigado
pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional
de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no
Brasil hoje? Eu que agradeço
este convite. São iniciativas assim que fortalecem o trabalho do RPG
nacional e o levam a mais gente, porque, se depender dos algoritmos
das redes sociais, você não sai do lugar.
Bem, primeiramente
quero falar com a comunidade. Vejo muitas editoras abandonando
trabalhos nacionais e trazendo materiais de fora, porque estes dão
dinheiro e giram financiamentos. Então, precisamos parar um pouco de
achar que tudo o que é nacional é ruim.
Fechamos algumas
parcerias na Itália, e eles olharam nosso material e elogiaram,
porque está realmente em um patamar que nem sempre os materiais de
lá atingem.
Então, devemos
deixar de lado esse preconceito e apoiar mais materiais nacionais. Sabemos que existem
problemas — financiamentos que não são entregues e acabam
manchando quem faz um trabalho sério. Mas procurem quem faz um
trabalho sério, como nós e tanto outros. Adotem ERÄ como seu
cenário oficial, assinem o Connect — são apenas 4 reais por mês.
Tragam suas aventuras para ERÄ e, quem sabe, tornem-nas canônicas
no cenário. Sim, isso é possível com os projetos Aventuras em
Tela, ZOOM e Adote uma Cidade.
Enfim, vamos olhar
um pouco mais para o mercado interno e para quem faz RPG há tanto
tempo quanto nós.
E, para quem está a
fim de criar, eu digo: vá fundo. RPG é criação, faz parte do
processo. Porém, se a ideia é ganhar dinheiro ou abrir
financiamentos, vale dar um passo atrás primeiro e avaliar: o que
estou criando é mais do mesmo? Quero dar continuidade a isso ou é
algo pontual? Isso precisa ser claro para quem está adquirindo.
Participo de muitos grupos e comunidades e vejo muita gente
reclamando que o RPG X saiu de linha — está igual carro: você
compra e depois não tem mais suporte. Então, crie. Nós,
da RPGBrasil, somos os primeiros a incentivar e divulgar isso, fala
com a gente que te ajudamos a divulgar. Mas tente criar algo
inovador, que agregue às mesas de RPG, ou algo duradouro, que
permita a quem consumir seu material ter sempre novidades
disponíveis.
E lembre-se: RPG não
torna ninguém rico da noite para o dia. Já vi pessoas entrando no
meio e saindo meses depois, porque acharam que ganhariam muito
dinheiro com isso e acabaram desistindo. Se quiser começar a criar,
faça por amor — qualquer retorno financeiro será consequência de
um trabalho bem feito e persistente.
Bem, acredito que
seja isso: uma opinião sincera de quem está nessa jornada há mais
de 30 anos.
Sucesso a todos! E
lembre-se: não existe RPG certo ou errado, nem formas certas ou
erradas de jogar. Jogue o que faz sentido para você e o que você
gosta… se fizer isso e todos se divertirem, você realmente
entendeu a essência do RPG.  Leia Também
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